segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O século XXI irá representar 20.000 anos de progresso humano

Em um mundo onde as descobertas são quase sempre resultado de esforços conjuntos, de trabalhos realizados em laboratórios com vários profissionais, multidisciplinares e, muitas vezes, reunindo vários laboratórios ao redor do mundo, Raymond Kurzweil ainda parece trabalhar à moda antiga. Não que ele dispense os colaboradores, mas a forma com que apresenta seus trabalhos e idéias torna este americano nascido em 1.948 um dos expoentes do mundo científico atual.Ao contrário da maioria dos cientistas, que não vêem uma conexão possível entre a ciência e as profecias, Raymond Kurzweil não se intimida em emitir previsões para as décadas futuras. E para mostrar que acredita realmente no que diz, ele apostou US$20.000,00 que, em 2.029, uma máquina será capaz de passar pelo teste de Turing. O valor da aposta foi depositado junto à Long Bet Foundation, uma instituição dedicada a imaginar o futuro.

O teste de Turing consiste em que uma máquina consiga simular um ser humano. Uma pessoa deve interagir com o computador por meio de um terminal, através unicamente de texto. O computador passa no teste se a pessoa não for capaz de distinguir se está conversando com uma pessoa ou com um computador. Não há restrições sobre os assuntos que a pessoa possa conversar com o computador. Qualquer coisa dentro da experiência humana é válido, seja arte, ciência, história pessoal ou relações sociais. A linguagem também é livre e metáforas podem ser usadas como em uma conversa normal. Os experimentos atuais de Inteligência Artificial ainda nem se aproximam de tamanha sofisticação.

Mas Kurzweil não parou por aí. Falando em uma Conferência sobre sensores, ele disse que, em 2.030, nanosensores poderão ser injetados na corrente sanguínea de uma pessoa, implantando microchips que poderão amplificar ou mesmo suplantar diversas funções cerebrais. As pessoas poderão então compartilhar memórias e experiências íntimas emitindo suas sensações como ondas de rádio para os sensores de outra pessoa.

Em sua palestra intitulada "The Rapidly Shrinking Sensor: Merging Bodies and Brain" (O Rápido Encolhimento dos Sensores: Juntando Corpo e Cérebro), Kurzweil disse que a realidade virtual poderá ampliar as sensações humanas, permite até que uma pessoa altere espontaneamente sua identidade e até aja como se tivesse outro sexo.

Estas afirmações deliberadamente provocativas poderiam ser apenas curiosidades caso não estivessem sendo feitas por um cientista recentemente agraciado com o National Inventors Hall of Fame, o mais importante prêmio dado nos Estados Unidos para pesquisadores individuais. O prêmio é dado anualmente pelo consagrado MIT (Massachussets Institute of Technology).

O prêmio foi dado em reconhecimento ao trabalho de Kurzweil na área de reconhecimento de caracteres e voz. Ele inventou o primeiro sistema de reconhecimento de caracteres que trabalha com qualquer tipo de fonte, o primeiro scanner de mesa baseado na tecnologia CCD e o primeiro sintetizador texto-voz. Mas a lista de suas realizações inventivas chega a incríveis 27 "primeiro a ... ".

Em sua palestra, o inventor e criador de meia dúzia de empresas ressalta que a taxa de progresso tecnológico está se acelerando. "Mudanças de paradigma exigem muito menos tempo hoje. O que levava 50 anos para se desenvolver no passado não irá tomar 50 anos no futuro." disse o cientista. Segundo ele, cem anos de progresso poderão ser facilmente reduzidos para 25 anos ou menos.

"A Lei de Moore é apenas um exemplo: todo o progresso do século XX pode duplicar-se nos próximos 14 anos.", disse Kurzweil. "De certa forma, o século XXI irá representar 20.000 anos de progresso. Com tal aceleração, torna-se possível visualizar uma interação com a tecnologia que era anteriormente reservada para escritores de ficção científica."

As tendências atuais tornarão possível a engenharia reversa do cérebro humano por volta de 2.020. E US$1.000,00 de custo de computação, o que mal cobria o custo de um processador 8088 em 1.982, irá oferecer 1.000 vezes mais capacidade do que o cérebro humano em 2.029.

A engenharia reversa do cérebro refere-se a um possível mapeamento de cada região do cérebro. Modelos matemáticos seriam construídos para que se reproduza o comportamento de cada uma destas regiões. O passo natural seguinte seria a construção de máquinas - circuitos eletrônicos - que desempenhassem as mesmas funções ou então a programação de computadores com algoritmos que simulassem estas regiões. Todas juntas poderiam formar um cérebro virtual ou um cérebro eletrônico.

É daí que emerge o nome de sua palestra. Segundo o professor-visionário, os sensores são elementos-chave nessa tecnologia. Serão eles os responsáveis pela captação dos diversos impulsos vindos de cada parte do cérebro ou de cada parte do corpo, repassando os impulsos entre as porções virtuais.

Kurzweil é um entusiasta de sua principal área de pesquisa, a Inteligência Artificial. Ele citou o desenvolvimento de uma personalidade virtual, uma atendente que auxilia os viajantes a montarem seu roteiro de viagem, reservar as passagens e escolher a poltrona. O sistema, baseado em reconhecimento e sintetização de voz, está em pleno funcionamento na empresa aérea britânica British Airways. Durante a palestra, ele apresentou também Ramona, a atendente virtual que recebe os visitantes em seu site.

"Inteligência Artificial trata de fazer com que os computadores façam coisas inteligentes. Em termos de senso comum, os humanos são mais avançados do que os computadores... ainda que o cérebro humano faça apenas cerca de 200 cálculos por segundo. Os equipamentos de computação disponíveis em 2.030 serão capazes de fazer 100 trilhões de conexões e 1026 cálculos por segundo." disse Kurzweil.

Atualmente, vários fabricantes e laboratórios de pesquisa já possuem protótipos avançados de computadores de vestir. Sensores magnéticos e de rádio-freqüência embutidos nas roupas são capazes de permitir uma troca de cartões de visitas através de um simples aperto de mão. Extrapolando tais experiências, Kurzweil diz que logo será possível que os interlocutores intercambiem todos os seus cinco sentidos.

Extrapolando ainda mais, Kurzweil afirma que, entre 2.030 e 2.040, inteligência não biológica poderá se tornar dominante. O curioso é que sua perspectiva futurística rejeita a visão tradicional dos ciborgs ou robôs humanóides. Ao contrário de dar sentidos humanos a uma máquina, o cientista acredita que os humanos poderão receber injeções de máquina em suas veias. A tendência "é a imersão total de realidade virtual no interior de nosso sistema nervoso, o que envolverá milhões ou mesmo bilhões de nanobots comunicando-se de forma não invasiva através de nosso sistema nervoso."

Implantes da cóclea (parte anterior do labirinto humano) já permitem a restauração da audição de vários pacientes. Chips implantados também têm mostrado resultados animadores no controle muscular de pacientes com mal de Parkinson.

Mas o professor não deixou de mostrar também o lado negro das suas visões. Uma das maiores ameaças da nanotecnologia, que a maioria dos cientistas reputam apenas como delírio de ficção, é a possibilidade de que máquinas microscópicas possam construir outras iguais a si mesmas, criando um fenômeno de auto-multiplicação. Segundo Kurzweil, no futuro, nanomáquinas auto-replicantes poderão se transformar em uma espécie de câncer. Mas, para não terminar de maneira ameaçadora, ele ressaltou que há, na tecnologia, muito mais coisas para nos libertar do que para nos ameaçar.

Para aqueles que gostariam de ser tão inventivos quanto o professor Kurzweil, ele dá a receita. Antes de dormir, deve-se pensar em um problema, sem tentar resolvê-lo. Pela manhã, enquanto a grande maioria das pessoas desperta diretamente do sonho para a vigília, Kurzweil afirma conseguir ficar em um estado intermediário, como que sonhando acordado, o que ele chama de sonho lúcido. Segundo ele, "enquanto você está dormindo, você não reconhece tabus sexuais ou sociais e outras inibições também estão relaxadas. Mas o que falta no estado de sonho total é o lado racional e lógico. Quando está sonhando algo esquisito, você não pensa: 'isto é estranho.'. No estado de sonho lúcido você pensa isto e é isto que torna este um momento de criatividade único.

Ray Kurzweil é autor dos livros A Era das Máquinas Espirituais e A Era das Máquinas Inteligentes.

Futuro do Universo pode estar influenciando o presente


Uma reformulação radical da mecânica quântica sugere que o Universo tem um destino definido, e que esse destino já traçado volta no tempo para influenciar o passado, ou o presente.

É uma afirmação alucinante, mas alguns cosmólogos já acreditam que uma reformulação radical da mecânica quântica, na qual o futuro pode afetar o passado, poderia resolver alguns dos maiores mistérios do universo, incluindo a forma como a vida surgiu.

E, além da origem da vida, poderia ainda explicar a fonte da energia escura e resolver outros enigmas cósmicos.

O que é mais impressionante é que os pesquisadores afirmam que recentes experimentos de laboratório confirmam de forma dramática os conceitos que servem de base para esta reformulação.

O cosmólogo Paul Davies, da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, está iniciando um projeto para investigar que influência o futuro pode estar tendo no presente, com a ajuda do Instituto FQXi, uma entidade sem fins lucrativos cuja proposta é discutir as questões fundamentais da física e do Universo.

Ordem oculta na incerteza

É um projeto que vem sendo acalentado há mais de 30 anos, desde que Davies ouviu falar pela primeira vez das tentativas do físico Yakir Aharonov para chegar à raiz de alguns dos paradoxos da mecânica quântica.

Um desses paradoxos é o aparente indeterminismo da teoria: você não pode prever com precisão o resultado de experimentos com uma partícula quântica; execute exatamente o mesmo experimento em duas partículas idênticas e você vai obter dois resultados diferentes.

Enquanto a maioria dos físicos que se confrontaram com esse problema concluíram que a realidade é, fundamentalmente, profundamente aleatória, Aharonov argumenta que há uma ordem oculta dentro da incerteza. Mas, para entender sua origem, é necessário um salto de imaginação que nos leva além da nossa visão tradicional de tempo e causalidade.

Em sua reinterpretação radical da mecânica quântica, Aharonov argumenta que duas partículas aparentemente idênticas comportam-se de maneiras diferentes sob as mesmas condições porque elas são fundamentalmente diferentes. Nós apenas não detectamos esta diferença no presente porque ela só pode ser revelada por experiências realizadas no futuro.

"É uma ideia muito, muito profunda", diz Davies.

A abordagem de Aharonov sobre a mecânica quântica pode explicar todos os resultados normais que as interpretações convencionais também conseguem, mas tem a vantagem adicional de explicar também o aparente indeterminismo da natureza.

Consequências presentes do futuro

Além do mais, uma teoria na qual o futuro pode influenciar o passado pode ter repercussões enormes e muito necessárias para a nossa compreensão do universo, diz Davies.

Os cosmólogos que estudam as condições do início do universo ficam intrigados sobre o porquê do cosmos parecer tão idealmente talhado para a vida.

Mas há também outros mistérios: Por que é que a expansão do universo está se acelerando? Qual é a origem dos campos magnéticos visto nas galáxias? E por que alguns raios cósmicos parecem ter energias impossivelmente altas?

Estas questões não podem ser respondidas apenas olhando para as condições passadas do universo.

Mas talvez, pondera Davies, se o cosmos já tem definidas algumas condições finais nele próprio - um destino -, então isto, combinado com a influência das condições iniciais estabelecidas no início do universo, pode perfeitamente explicar estes enigmas cósmicos.

É uma ideia muito boa - embora extremamente estranha.

Testando a flecha do tempo

Mas haveria alguma maneira de verificar a sua viabilidade? Dado que ela invoca um futuro ao qual ainda não temos acesso como causa parcial do presente, isto parece ser uma tarefa impossível.

No entanto, testes de laboratório engenhosamente inventados recentemente colocaram o futuro em teste e descobriram que ele poderia realmente estar afetando o passado.

Aharonov e seus colegas previram há muito tempo que, para certos experimentos quânticos muito específicos, realizados em três etapas sucessivas, o modo como a terceira e última etapa é realizada pode mudar dramaticamente as propriedades medidas durante o passo intermediário. Assim, ações realizadas no futuro (na terceira etapa), seriam vistas afetando os resultados das medições efetuadas no passado (na segunda etapa).

Em particular, nos últimos dois anos, equipes experimentalistas realizaram repetidamente experiências com lasers que mostram que, ajustando o passo final do experimento, é possível introduzir amplificações dramáticas no montante pelo qual o feixe de laser é desviado durante as etapas intermediárias do experimento. Em alguns casos, a deflexão observada durante a etapa intermediária pode ser amplificada por um fator de 10.000, dependendo das escolhas feitas na etapa final.

Estes resultados estranhos podem ser explicados de forma simples pelo quadro traçado por Aharonov: a amplificação intermediária é o resultado da combinação de ações realizadas tanto no passado (na primeira etapa) quanto no futuro (na etapa final).

É muito mais complicado explicar esses resultados usando interpretações tradicionais da mecânica quântica, afirma Andrew Jordan, da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, que ajudou a conceber um dos experimentos com laser.

A situação pode ser comparada à forma como o modelo heliocêntrico do Sistema Solar, de Copérnico, e o modelo geocêntrico de Ptolomeu, ambos fornecem interpretações válidas dos mesmos dados planetários, mas o modelo heliocêntrico é muito mais simples e mais elegante.

Embora os experimentos com laser estejam dando boas notícias para a equipe, Davies, Aharonov, Tollaksen e seu colega Menas Kefatos, da Universidade Chapman, na Califórnia, estão agora à procura de consequências cósmicas observáveis de informações do futuro influenciando o passado.

Consequências cósmicas

Um bom lugar para procurar é a radiação cósmica de fundo (CMB), o "brilho" remanescente do Big Bang. A CMB tem ondulações fracas de calor e frio e, trinta anos atrás, Davies desenvolveu um modelo com seu então aluno Tim Bunch que descreve essas ondas no nível quântico.

Davies e Tollaksen estão agora revisando este modelo no novo arcabouço quântico.

Físicos têm ideias já bem desenvolvidas sobre como era o estado inicial do universo e como pode acabar sendo seu estado final - muito provavelmente um vácuo, o resultado inevitável da contínua expansão.

A equipe está colocando estas ideias junto com seu novo modelo para ver se ele consegue prever assinaturas características da influência do futuro na CMB que possam ser captadas pelo telescópio espacial Planck.

"A cosmologia é um caso ideal para esta abordagem," afirma Bill Unruh, da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá. "Desde que Aharonov encontrou esses resultados tão estranhos em algumas situações, vale a pena olhar para a cosmologia."

O Padre Pierre Teilhard de Chardin teorizou a influência do futuro no passado a mais de 60 anos atrás,assim como a internet e a Singularidade.

Davies ainda não sabe se essas ideias vão produzir resultados. Mas se o fizerem, seria revolucionário.

"A coisa mais notável sobre Paul," avalia Michael Berry, da Universidade de Bristol, "é que ele tem ideias muito selvagens combinadas com extremo cuidado e sobriedade."

Este pode ser exatamente o caráter necessário para fazer um grande avanço. Pode até ser o destino de Davies, uma mescla de seu futuro e de seu passado.

fonte: Inovação Tecnológica